A dança que mora no corpo: movimentar para existir

Antes de aprendermos a falar, já sabíamos nos mover. O corpo sempre teve sua própria linguagem — e dançar é uma das formas mais sinceras de dizer o que sentimos sem precisar usar palavras. Mesmo assim, muitas pessoas passam a vida acreditando que não sabem dançar. Como se dançar fosse um dom reservado aos técnicos, coreografados, aos que se movem “bonito”. Mas a verdade é que o corpo dança antes mesmo da mente permitir.

A dança que cura não é feita para agradar aos outros. Ela acontece na sala de casa, no quarto com a porta fechada, no momento em que a música toca e o corpo começa a responder sozinho, mesmo que com um gesto mínimo. Um balançar leve, um giro discreto, uma mão que se abre no ar. É nesse movimento íntimo que a alma encontra espaço.

Dançar pode ser uma forma profunda de autocuidado.

Em estados de ansiedade, por exemplo, o corpo muitas vezes se retrai: músculos tensos, respiração curta, sensação de aperto. Ao dançar, mesmo que suavemente, criamos espaço dentro de nós. Alongamos a emoção. Liberamos o que estava preso. É como se, ao movermos o corpo, movimentássemos também os sentimentos que estavam estagnados.

A dança também é reconexão. Quando vivemos situações traumáticas ou períodos longos de tristeza, é comum nos afastarmos do corpo — tratá-lo como um fardo, um lugar de dor ou desconforto. Mas ao dançar, mesmo que por poucos minutos, lembramos que o corpo também pode ser morada. Que pode ser gentil. Que pode ser livre.

É sobre entrega.

E não se trata de ritmo ou técnica. Trata-se de entrega. De sentir a música e deixar que ela conduza. De confiar que, mesmo sem passos ensaiados, o corpo sabe o que fazer. E mesmo que a música esteja só na cabeça, o gesto já é dança.

Muitas práticas terapêuticas usam o movimento como forma de expressão emocional: dançaterapia, biodança, movimento autêntico. Mas você não precisa de aulas para começar. Basta dar play em uma música que te emocione, fechar os olhos e permitir-se balançar. Não precisa durar muito. Não precisa fazer sentido. Precisa apenas ser seu.

Talvez você chore. Talvez ria. Talvez só respire melhor depois. O importante é lembrar que o corpo também sente. E quando ele encontra espaço para se mover, algo em nós também se liberta.

Porque dançar, no fundo, é isso: existir em movimento. Ser presença no mundo com tudo que se é — sem ensaio, sem vergonha, sem medo.

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