Vivemos cercados de imagens. Registramos tudo: viagens, almoços, paisagens, rostos, rotinas. Mas em meio a tantos cliques, muitas vezes esquecemos de olhar. De verdade. Esquecemos que a fotografia pode ser mais do que um registro. Pode ser uma prática de presença, um jeito de sentir o mundo com mais atenção, um exercício de saúde mental.
A fotografia afetiva não se preocupa com técnica, filtros ou likes. Ela nasce da vontade de guardar algo que nos tocou: a luz da manhã atravessando a janela, a xícara de café com cheiro de casa, a mão enrugada da avó, o céu antes da chuva, o detalhe de um objeto antigo. Coisas simples, mas cheias de história.
Registrar momentos e se emocionar.
Registrar esses momentos é também uma forma de dizer: “isso me emocionou.” E quando fazemos isso com intenção, algo em nós muda. A ansiedade diminui, a mente desacelera. Passamos a ver com mais nitidez aquilo que antes passava despercebido. Pequenos milagres diários que estavam ali o tempo todo.
A fotografia pode ser um respiro para quem vive com depressão. Um convite a sair do automático. A prestar atenção nas cores, nas formas, nos contrastes. A procurar beleza nos lugares onde antes só havia cansaço. Não precisa sair de casa. Muitas vezes, a poesia está no quintal, na sala, no corredor. Está no jeito como a luz encontra o chão, ou em como uma sombra se deita sobre a parede.
Guardar memórias.
E mesmo quando não fotografamos, o ato de olhar com intenção já é transformador. Treinar o olhar para o afeto é, no fundo, treinar o coração para se abrir ao presente.
Outra dimensão da fotografia é a memória. Rever imagens antigas pode ser um mergulho profundo em quem fomos, em quem éramos quando ainda não sabíamos o que sabíamos hoje. Em momentos felizes que pareciam perdidos, mas que voltam inteiros em um clique. É como se a imagem trouxesse de volta não só o que vimos, mas o que sentimos naquele instante.
Por isso, criar um álbum afetivo — digital ou impresso — pode ser um gesto de autocuidado. Uma coleção de lembranças escolhidas com carinho, que sirvam como âncoras em dias difíceis. Como dizer para si: “olha, já houve beleza. E ela pode acontecer de novo.”
Fotografar pode ser um diário visual. Um testemunho silencioso da nossa sensibilidade. Um lembrete de que o mundo ainda tem encanto, e que basta olhar com olhos novos para reencontrá-lo.

